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Vantagem chinesa

Vantagem chinesa

Pode parecer que estou remando contra a correnteza – o que em parte é verdade -, mas tenho para mim que é a economia americana, não a chinesa, a que oferece a maior probabilidade de sair em melhores condições da crise que começou em seu sistema financeiro e se propagou ao resto do mundo. Ambas têm problemas ciclópicos e por enquanto a China vai continuar em vantagem pela simples e boa razão de que é melhor lidar com os problemas da economia crescendo 7,5% ou 8% do que com 1,5% e 2% de crescimento do PIB que a grande maioria dos países (EUA, inclusive) vêm mantendo.Pode-se aceitar, então, sem muito medo de errar, que, no curto e médio prazo, a China vai continuar com as maiores taxas de crescimento da economia mundial. O que não se pode imaginar é que, com toda a economia mundial afundando, isso não produziria nenhum efeito na China. Afinal, como o Brasil e os demais, a China teve os benefícios do crescimento global e agora enfrenta os efeitos da crise. Sua economia está sendo obrigada a desacelerar, é verdade que bem menos que a maioria: o PIB deixa de crescer 10% ou 9% ao ano para 7,5%, talvez 8%, mas não sustenta mais aquela expansão extraordinária que vinha deixando quase todo mundo para trás.Os sinais dessa queda são óbvios, as exportações sofrem e a demanda interna não consegue sustentar os níveis crescentes que manteve praticamente durante três décadas, quase sem nenhuma interrupção e por pouco tempo. O que impressiona é a rapidez com que está enfrentando os problemas, reduzindo a taxa de juros, cortando importações e procurando redirecionar as vendas externas. E, mais ainda, com medidas de proteção interna radicais, como a redução à metade do imposto que cobrou dos investidores externos todos estes anos. E por que ela está se apressando a fazer isso? Porque a maior parte dos investimentos vem dos Estados Unidos, cuja economia entrou em marcha.A China entendeu que os Estados Unidos fazem um esforço revolucionário de mudar estruturalmente sua economia, com o redirecionando dos investimentos em inovação e nas formas de produzir energia, visando substituir fontes tradicionais, principalmente o poluente carvão e o próprio “deus” petróleo. Acredito que a recuperação da economia americana continuará em ritmo lento, mas mais seguro e com mudanças muito mais profundas nos processos de produção. É a sociedade que mais persegue as inovações e é em seu mercado financeiro que se encontra o crédito para desenvolvê-las.Nessa qualidade, continuam imbatíveis: o sujeito tem uma ideia original e sai atrás do dinheiro até encontrar um banqueiro, digamos, maluco, que vai financiar o seu desenvolvimento. Não tenhamos ilusão sobre aonde vai conduzir essa corrida. As grandes inovações e as empresas que as detêm estavam ou permanecem na China, e estão retornando aos Estados Unidos, como é o caso, por exemplo, da Caterpillar, a General Electric e outras. Logo, muitas coisas vão deixar de gravar aquele “made in China” para retornar ao velho e costumeiro “made in USA”…

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Agricultura e do Planejamento

Pode parecer que estou remando contra a correnteza - o que em parte é verdade -, mas tenho para mim que é a economia americana, não a chinesa

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