Al Gore abandona investimentos “verdes” – mas continua estrela
Al Gore pode não ter conseguido chegar à Casa Branca, devido às escandalosas fraudes ocorridas nas eleições presidenciais de 2000 e à decisão da Suprema Corte, que concedeu, por um único voto, a vitória ao seu rival George W. Bush. Porém, o ex-vice-presidente estadunidense não tem do que se queixar, pois tem se dedicado a uma autêntica cruzada global contra as emissões de carbono que, além do Oscar de melhor documentário e do Prêmio Nobel da Paz de 2007, lhe rendeu uma multimilionária conta bancária e uma projeção internacional que chega a ofuscar a do seu colega de governo Bill Clinton. Entre outras iniciativas, Gore fundou a empresa Generation Investment, para promover investimentos em “tecnologias verdes”.Porém, nos últimos tempos, embora continue pregando o “aquecimentismo” em suas palestras por todo o mundo (pelas quais cobra um cachê básico de 170 mil dólares, além das despesas de viagem para ele e sua equipe), Gore parece estar manifestando um maior senso de realismo e prudência quanto aos seus próprios investimentos. Segundo Bill Gunderson, presidente da consultoria Gunderson Capital Management, os investimentos da Generation Investiment nos últimos anos sugerem que o paladino do clima sabe que investir nas fontes energéticas “renováveis” que continua pregando não é um bom negócio.“Mas é claro que ele não diria isso em público”, afirmou Gunderson, em matéria publicada no sítio WND Money (28/09/2012). Segundo ele, a empresa de Gore ainda fala “sobre como as energias renováveis são um bom investimento”, mas uma análise dos seus balanços mostram que a companhia está apostando em investimentos mais sólidos. Na avaliação de Gunderson, trata-se “apenas de um fundo de investimentos típico com ações típicas… Inclui (ações da) Amazon, Colgate Palmolive, eBay, Nielsen, Qualcomm, Strayer University e uma variedade de ações de empresas de biotecnologia e da área médica”. Em síntese, “cateteres e imóveis comerciais, sim. Painéis solares, não”.De fato, do ponto de vista de um investidor racional, tal decisão foi acertada, pois, enquanto esses papéis tiveram um bom desempenho nos últimos dois anos, o mesmo não ocorreu com as ações de fabricantes de painéis fotovoltaicos, por exemplo. No verão de 2010, a Generation Investiment comprou cerca de 440.000 ações da empresa First Solar, a maior fabricante de painéis solares dos Estados Unidos, em um montante de 65 milhões de dólares. Todavia, os papéis tiveram um desempenho desastroso nos anos seguintes e, mesmo com a companhia de Gore continuando a comprar mais ações da First Solar (chegando a 1,12 milhão de ações), o valor total da participação da Generation Investiment na empresa encolheu para 28 milhões dólares, no início deste ano, tendo o fundo vendido todas elas pouco depois.Segundo Gunderson, a empresa de Gore também chegou a comprar ações de outras indústrias de energias renováveis, incluindo a alemã SMA Solar (que, no ano passado, teve uma desvalorização de 57% no seu valor de mercado). Outras empresas “verdes” que receberam investimentos da companhia de Gore foram a SunTech, EcoSynthetix, Landi Renzo e Meyer Burger – as quais, em 2011, tiveram desvalorizações de 82%, 60%, 25% e 49,6%, respectivamente.Comentando tal desempenho medíocre, Gunderson afirmou que “qualquer um envolvido com energias alternativas sabe que o setor está mal, devido à queda dos subsídios”, e ressaltou que “se você quer ter investimentos em energia no seu portfólio, existe uma imensa quantidade de ações estadunidenses relativas à produção de energia tradicional que estão indo muito bem”.Tais números, segundo Gunderson, garantem que o melhor a fazer é “vender qualquer coisa que esteja sob o Sol”, e elogiou a decisão de Gore em se desvencilhar das ações de fabricantes de painéis solares. “Eu não condeno Al Gore por se retirar das energias alternativas… mesmo que o tenha feito tão tarde, como no caso da First Solar”, afirmou. Entretanto, Gunderson fez a pergunta do milhão: “Mas quando é que ele vai contar às pessoas que as energias alternativas são um mau negócio?“Estrelato no Global Agribusiness ForumA despeito de tal postura hipócrita e, não menos, de sua crescente desmoralização como pregador do apocalipse climático, Gore continua sendo tratado como estrela de primeira grandeza no circuito internacional de conferências, como se percebe pela sua participação no Global Agribusiness Forum, que reuniu empresários e representantes do setor agropecuário no Brasil. No evento, realizado em São Paulo (SP), em 25-26 de setembro, Gore repetiu o surrado discurso alarmista com relação às mudanças climáticas, atribuindo vários fenômenos meteorológicos extremos ocorridos recentemente às atividades produtivas humanas.Em sua palestra, o paladino climático repetiu a coleção de platitudes e sandices habituais, chegando ao extremo de afirmar que a liberação de carbono dos combustíveis fósseis estaria causando uma quantidade extra de calor equivalente à energia gerada pela explosão de 400 mil bombas atômicas todos os dias. Outra de suas bobagens foi a afirmativa de que os gases como o dióxido de carbono (CO2) “continuarão lá [na atmosfera] daqui a 20 mil anos” (Exame.com, 28/09/2012) – passando por cima do amplamente conhecido ciclo do carbono, que estima o período de renovação deste elemento na atmosfera entre 5-20 anosO ilustre conferencista não deixou de proferir um alerta contra o que chamou o “crescimento desproporcional da população mundial”, sugerindo que os países pobres serão os grandes responsáveis pela alta nos preços dos alimentos: “Ao final desse século, a África terá mais pessoas do que a China e a Índia juntas. Eles terão problemas sérios, mas o Ocidente ainda não entrou com a ajuda necessária.“Com tais palavras, além de culpar um continente essencialmente subpovoado (a maior parte das nações africanas tem uma reduzida densidade demográfica) e ignorar os efeitos da especulação com commodities de alimentos na alta dos preços internacionais, Gore ainda expressa uma ótica colonialista, ao sugerir que a África deverá seguir dependente de ajuda externa, em vez de desenvolver capacidade para estabelecer os seus próprios destinos.Como solução, Gore propôs no Forum a adoção de medidas de redução de natalidade em países pobres (no discurso, usou a expressão “controle de fertilidade”, por achar menos agressivo), afirmando que “muitos países ficam ressentidos com a ideia. Mas a gestão da fertilidade seria uma opção para controlar aspectos sociais e ambientais como emissões de CO2”. Sobre o tema, ele ainda sugeriu que é preferível reduzir a população, como forma de modo a reduzir a pressão da demanda sobre os preços internacionais de gêneros alimentícios, a deixar de destinar grandes quantidades de grãos (como o milho) para produzir biocombustível.Por fim, Gore tentou estabelecer uma ponte direta entre a tese do aquecimento global antropogênico e o futuro do agronegócio, com base em uma noção falsa de que em o clima já teria sido linear e previsível, e que a “inconstância” do clima seria uma novidade dos tempos modernos. “Agora está tudo misturado. A previsibilidade disso tudo está mudando”, disse ele.No frigir dos ovos, a única certeza é que, seguramente, os organizadores do Global Agribusiness Forum tinham à disposição opções muito melhores (e bem menos custosas) de palestrantes brasileiros e estrangeiros que poderiam ter convidado para discorrer com a devida seriedade sobre os reais problemas com que não apenas o setor agropecuário, mas toda a economia e a sociedade brasileiras se defrontam, neste momento de crise sistêmica global.
Fonte: Alerta Cientifico Ambiental / FAMASUL
